MIGUEL PAUL
PRESIDENTE DE HONRA

ARTHUR MACEDO
PRESIDENTE EXECUTIVO

 

SINOPSE UNIÃO DO SAMBA BRASILEIRO 2006

 

"Bye Bye Brasil! Para Vigo Me Voy!"

 

Justificativa

Oi, coração
Não dá pra falar muito não
Espera passar o avião
Assim que o inverno passar
Eu acho que vou te buscar
Aqui tá fazendo calor
Deu pane no ventilador
Já tem fliperama em Macau
Tomei a costeira em Belém do Pará
Puseram uma usina no mar
Talvez fique ruim pra pescar
Meu amor

(trecho da canção Bye Bye Brasil, de Chico Buarque e Roberto Menescal)


O carnaval, como festa que povoa o imaginário popular com sonhos e fantasias, firma-se ano após ano como instrumento de protesto e crítica social. Neste ambiente, o Carnaval Virtual também adquire essas características. Atingindo maior público a cada ano, torna-se uma importante ferramenta de expressão de artistas de todo o Brasil.
Com este olhar para os desfiles das escolas de samba virtuais, trazemos à discussão, através de elementos jocosos e fantásticos proporcionados pelo carnaval, a televisão como instrumento de alienação coletiva, tema ligado ao cotidiano de cada um de nós.
Aliando cinema e carnaval, utilizamos como base para a elaboração de nosso enredo o filme Bye Bye Brasil, produzido em 1979 por Cacá Diegues. Filme de forte crítica social, traço marcante da obra desse cineasta, conta a história de artistas populares que tentam vencer a batalha contra a televisão narrando, assim, a forma como ocorre a extinção de diversas artes em nossa globalizada sociedade de espetáculo.
Sem se ater à cronologia do filme, embora coincidindo com ela, o Grêmio Recreativo Escola de Samba Virtual União do Samba Brasileiro parte com a Caravana Rolidei para uma viagem pelas mudanças da sociedade brasileira com a popularização da televisão. Na certeza de, no Carnaval Virtual 2006, ter na crítica e no bom humor fortes armas para fazer uma grande apresentação, cada componente se veste de sonho e parte em nossa viagem: PARA VIGO ME VOY!

Notas introdutórias

Este enredo não conta a história do filme, tampouco se atém a seus detalhes. Este enredo traz, através do filme, retratos sociais.
Destacadas em itálico, as falas citadas no texto são do personagem Lord Cigano, “comandante” da caravana.
“Para Vigo me voy” é o chavão de Lord Cigano, são suas “palavras mágicas”.
Para efeitos de setorização, tome-se por definição não rigorosa a seguinte composição: o prólogo corresponde ao setor de abertura da apresentação; os cinco atos correspondem aos cinco setores seguintes; o epílogo corresponde ao setor de desfecho, ao fim do desfile.
Bom carnaval a todos!


Prólogo – A magia da Caravana Rolidei

Venham ver Andorinha, o rei dos músculos, o homem mais forte do mundo! Venham ver Salomé, a rainha da rumba, a princesa do Caribe que já foi amante de um presidente dos Estados Unidos! Venham ver esta beleza internacional, vinda diretamente das ilhas fabulosas do mar das Antilhas! E venham, naturalmente, ver este seu criado...

Senhoras e senhores! Chega na cidade o espetáculo, coisa única a se ver por essas bandas! A Caravana Rolidei deixa encanto por onde passa. Pela voz do internacional Lord Cigano, imperador dos mágicos e dos videntes, a fabulosa trupe é anunciada e logo desperta interesse nos moradores de cada cidadela, de cada vilarejo onde se estabelece.
A singeleza da arte mambembe é o ápice de magia e encantamento de um Brasil esquecido.

Primeiro ato – O adeus a um Brasil interiorano

A caravana se apresenta. A cidadezinha é visão do abandono do interior brasileiro. Enquanto grandiosas obras são feitas com falsos sentimentos patrióticos de integrar a nação e engrandecer o país, o interior é abandonado. Lugar que o tempo esqueceu, povo que o tempo afastou da movimentação de grandes centros, vê num pequeno espetáculo a magia, pura e simples.
Lord Cigano, o mestre dos sonhos, realiza o maior sonho dos brasileiros. Ao contrário do que pensara o público, não era fartura nem progresso, tampouco ser eterno. “Para Vigo me voy!”. Com uma frase, se fez o encanto. Vestígios históricos de adoração e mitificação do estrangeiro, nevou no Brasil. Neve... sim, está nevando no sertão. Como na Suíça, na Alemanha, “la France”, como na velha Inglaterra, saudade... como na Europa em geral! E nos Estados Unidos da América do Norte. Agora, como em todo país civilizado do mundo, o Brasil também tem neve. E a neve tinha sabor de coco. O prefeito comemora, afinal está nevando em sua administração. Como bom político, de cidade grande ou pequena, faz de tudo um motivo para angariar votos. E se rende aos encantos da rainha da rumba, estrela do momento.
Ciço, “o maior sanfoneiro do Nordeste” e sua esposa Dasdô entram para a trupe. Ele deseja ver o mar. Sonho grande para quem tem seu mundo limitado à poeira do sertão. “Para Vigo me voy!”, num passe de mágica o encanto se faz, da mesma forma se desfaz, deixando na cidade sonhos tão fantásticos quanto a neve do sertão, sonhos que se desfazem como ela.
Os artistas populares fazem da simplicidade sua arte encantado àqueles que têm a mente livre da pré-concepção de espetáculo de nossa sociedade.

Segundo ato – A cidade das espinhas-de-peixe

E partem rumo ao mar...
Na cidade grande, espinhas-de-peixe enfeitam os telhados das casas. O barulho do trânsito é perturbador, comparado ao pacato silêncio do Brasil “escondido” que haviam percorrido. A cidade parece confusa. O caos é visual e sonoro. O caos é mental.
O sanfoneiro se encanta com a beleza do mar, que contrasta com o ambiente da cidade, mas é poluído, como tudo naquele novo Brasil parece ser.
A apresentação dos artistas não faz sucesso diante da minúscula platéia. Os mambembes e sua pura arte já não impressionam os olhos daqueles que agora são movidos por outro espetáculo.
A televisão já começava seu processo de domínio dos lares e das mentes, se tornando importante instrumento de aculturação e alienação em massa. Inimiga dos artistas de circo, tornaria cada vez mais dura a luta contra a extinção circense.

Terceiro Ato – Os “dancing days” da televisão

No Tocantins
O chefe dos parintintins
Vidrou na minha calça Lee
Eu vi uns patins pra você
Eu vi um Brasil na tevê
Capaz de cair um toró
Estou me sentindo tão só
Oh, tenha dó de mim
Pintou uma chance legal
Um lance lá na capital
Nem tem que ter ginasial
Meu amor

(trecho da canção Bye Bye Brasil)


O prefeito! Antigamente eles prometiam ponte para se eleger e quando tomavam posse construíam uma, mesmo que não tivesse rio na cidade. Ponte de nada pra porra nenhuma. Agora é isso!
A televisão chega aos lares e se torna sonho de consumo de quem não a tem. Televisão pública é grande obra politiqueira. Fascinação que gera adoração por um objeto pelo qual se acredita ver o mundo, pelo qual se vê um grande espetáculo, gigante dentro de uma pequena caixa.
Onde a “modernidade” chega, também está a televisão. Grandes obras de “integração nacional” de um governo que dita as regras da “degradação nacional”, como a Transamazônica, levam a televisão aos lugares mais remotos. A Rolidei parte buscando encontrar em Altamira, no coração da mata, um lugar onde as riquezas brotam do chão e há um grande público para explorar, mas lá as espinhas-de-peixe também já chegaram. No entanto, lá se encontrava o “chefe dos Parintintins vidrado numa calça Lee”.
Assim, a televisão alcança todos os lugares, forma opiniões, costumes e aliena a população. Com seus “dancing days”, cria um novo mundo, carregando a máscara de progresso e modernização.

Quarto Ato – Alienação em massa

Muitos são os produtos dessa grande fábrica de ilusões.
Através dela, a cultura em lata é importada. Exterminadores do futuro e super-homens são criados pelo amado Tio Sam. Presidentes “colloridos” são eleitos através da imagem. A sociedade de espetáculo se concretiza a cada novo “tele-show”.
As telenovelas criam a ilusão de um mundo cor-de-rosa e, ao mesmo tempo, vendem conceitos sociais. Recentemente, “reality shows” criaram uma falsa idéia de realidade e atiçaram as formas mais estapafúrdias da curiosidade humana.
Apresentadores sensacionalistas se tornam sucesso nacional do dia para a noite. Homens dos baú criam o culto à própria imagem. Desta maneira, cada domingo ganha um “tcham” especial. E, na briga pelos índices de audiência, esse “tcham” só cresce.
E quem consegue “segurar o tcham”, “amarrar o tcham”?

Quinto Ato – De Rolidei a Rolidey – O mega-show da Caravana

Andando por esse novo Brasil, Lord Cigano perde a caravana numa aposta. Salomé e Dasdô partem para a prostituição, mal social presente em toda a história da humanidade. A prostituição é motivo de briga entre os homens da caravana e, com isso, separam-se.
Como tantos outros casais sertanejos, Dasdô e Ciço vão parar em Brasília. “Eldorado de oportunidades”, onde se deparam com a favelização da capital federal. Os satélites do avião não têm a mesma nobreza dos palacetes de arquitetura moderna dos “nobres” brasileiros. Lá, refazem sua vida e o sanfoneiro vende seu espetáculo, se adequando à nova realidade.
Sob o comando de Lord Cigano, a Rolidei se refaz, aprendendo que Rolidei tem um “ipsilône”. A agora Caravana Rolidey se moderniza, transformando-se num grande espetáculo aos moldes televisivos. Seguem rumo a algum lugar onde encontrarão público. Para Vigo me voy!
A arte circense encontra na modernização uma alternativa para tentar lutar contra o monstro da televisão. Desvirtuando a arte, a Rolidey se modernizou, da mesma forma que grandes parques de diversões, mega-espetáculos e afins se tornam sucesso, da mesma maneira que até mesmo o carnaval se modernizou e perdeu sua essência.
A aculturação gera o fim da magia e da pureza humana.

Epílogo – Para Vigo me voy!

Bye bye, Brasil
A última ficha caiu
Eu penso em vocês night and day
Explica que tá tudo okay
Eu só ando dentro da lei
Eu quero voltar, podes crer
Eu vi um Brasil na tevê
Peguei uma doença em Belém
Agora já tá tudo bem
Mas a ligação tá no fim
Tem um japonês trás de mim
Aquela aquarela mudou
Na estrada peguei uma cor
Capaz de cair um toró
Estou me sentindo um jiló
Eu tenho tesão é no mar
Assim que o inverno passar
Bateu uma saudade de ti
Tô a fim de encarar um siri
Com a benção de Nosso Senhor
O sol nunca mais vai se pôr

(trecho da canção Bye Bye Brasil)

Certamente, a Caravana não partiu rumo a Vigo, tampouco a Altamira. Talvez, tenha partido rumo a um sonho maior, a Altamira, não a real, mas a de que haviam ouvido falar. Com seu “jeitinho brasileiro”, se adaptaram à realidade, para tentar alcançar a cidade onde brotam riquezas do chão e onde os abacaxis são do tamanho de uma jaca.
Transportemo-nos todos nós para uma outra sociedade, na qual haja fartura, na qual o encanto não acabou. Transportemo-nos para uma sociedade onde a arte tenha graça, onde a magia se faça com um simples truque de mágico. Antes ingenuamente enganados por um número de charlatão que maliciosamente manipulados pelo demônio da televisão.
Vamos, todos nós, para um mundo feliz, fazer nossa folia com arlequins e querubins. Um mundo onde, certamente, não há “aculturação televisiva”.
Bye Bye, Brasil! Para Vigo me voy!

William Tadeu “Perucheano”
Carnavalesco